Dia Mundial da Água

O preço de nossa desatenção com as bacias hidrográficas

Segundo o site Wikipedia, uma bacia hidrográfica ou bacia de drenagem de um curso de água é o conjunto de terras que fazem a drenagem da água das precipitações para esse curso de água e rios menores que desaguam em rios maiores (afluentes). Ainda segundo o site, a história do homem sempre esteve muito ligada às bacias hidrográficas: a bacia do rio Nilo foi o berço da civilização egípcia; os mesopotâmicos se abrigaram no vale dos rios Tigre e Eufrates; os hebreus, na bacia do rio Jordão e assim por diante. Apesar disso, o Brasilnão planejou o uso do território considerando o fluxo, o escoamento, a reservação, a preservação e os usos múltiplos de suas águas. Pior, embora a natureza sabiamente já tenha feito o papel de subdividir o território de forma a garantir a água, as cidades intervieram nas bacias e desequilibraram essa ordem.

Nessa visão intervencionista, e a macrometrópole paulistana é um exemplo disso, autoridades e o poder público encararam os rios como problema, então eles foram transfigurados, esticados, cobertos, impermeabilizados e margeados por ruas e estradas. Esqueceram de que é essencial haver a infiltração das águas para a recarga dos rios subterrâneos, para a manutenção dos riachos e dos rios menores que alimentam os rios maiores e muitos reservatórios naturais.

A expansão das áreas urbanas,  mesmo em áreas rurais, não considerou o desequilíbrio causado pelo desmatamento das margens dos rios e pela devastação das matas, que sempre foram responsáveis por reter as águas permitindo seu aproveitamento em seus vários usos. O desmatamento e a impermeabilização aceleraram o fluxo das águas impedindo seu completo aproveitamento, seja na agricultura, na indústria ou para o abastecimento.

Temos ainda a grave falta de saneamento básico. As cidades não investiram na coleta e tratamento dos esgotos e os rios viraram diluidores de esgoto. Asregiões metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo ainda não tratam nem metade desses resíduos. A se manter assim será difícil pensar em um dia usar as águas já existentes nas áreas urbanas, sem contar a necessidade urgente de reduzir as absurdas perdas de água potável nos sistemas de distribuição.

Embora tenhamos feito muito esforço para organizar os comitês de bacia, por aprovar leis de uso racional dos recursos hídricos e mesmo de tentar avançar na cobrança da água como fonte de recursos para mais avanços, a verdade é que hoje a maior parte dos comitês estão esvaziados e sem perspectivas. Foram politizados, perderam sua característica técnica e foram enfraquecidos.

É essencial fortalecer os comitês de bacias hidrográficas para que voltem a ser o centro do planejamento dos recursos hídricos. Não cabe mais esse modelo onde cada município tem que lutar por solução única, como se as cidades do entorno não fizessem parte dos mesmos problemas e soluções. Assim como prevê a Política Nacional de Recursos Hidricos de 1997, que considera a bacia hidrográfica como unidade de planejamento de recursos hídricos, precisamos tê-la como ponto central das cidades para ganharem escala e reduzir custos, acelerar o saneamento básico, o reflorestamento, a redução das perdas e o reúso das águas, senão estamos condenados a conviver com uma escassez hídrica cada vez mais severa.

Édison Carlos é presidente Executivo do Instituto Trata Brasil e Glauco Kimura de Freitas é coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil

Édison Carlos - Presidente Executivo do Instituto Trata Brasil

Glauco Kimura de Freitas - Coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil

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